Roupas não devem ir para o lixo comum. A destinação correta depende da composição do tecido da peça. Roupas de fibras naturais podem voltar à natureza. Peças sintéticas, misturadas ou ainda em bom estado devem continuar circulando por reuso, conserto ou reciclagem. Esse é o princípio do conceito de economia circular na moda.
Por que o descarte de roupas virou um problema?
Nunca se produziu e consumiu tanta roupa num espaço de tempo tão curto. As roupas são produzidas cada vez mais rápido, consumidas e descartadas em velocidade recorde após 7 ou 10 vezes de uso, quando não ocorre o descarte antes mesmo da peça ter sido usada. Porém, menos de 1% do material usado para fazer roupas no mundo é reciclado e volta a virar roupa, segundo a Fundação Ellen MacArthur.
A economia circular propõe outro caminho: eliminar o desperdício e a poluição desde o projeto, manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível e regenerar os sistemas naturais. Na prática, toda roupa precisa de um "depois" planejado, e esse depois segue dois caminhos: o ciclo biológico e o técnico. Essa ideia de separar o que volta para a natureza e o que volta para a indústria vem do conceito Cradle to Cradle ("do berço ao berço"), dos autores William McDonough e Michael Braungart.
Ciclo biológico: quando a roupa volta para a terra
O ciclo biológico vale para materiais que podem ser biodegradados e devolver nutrientes ao solo. Na moda, fibras naturais, como o algodão orgânico, o linho, o cânhamo e a lã, por exemplo, podem seguir tanto o fluxo do ciclo biológico quanto o técnico. Mas para a peça entrar no ciclo biológico, ela precisa necessariamente ser biodegradável:
• Ser composta 100% fibra natural, sem mistura com poliéster, elastano ou outras fibras.
• Ter sido produzida com corantes e acabamentos de baixo impacto, pois químicos agressivos contaminam o solo.
• Ter os todos os aviamentos removidos (elásticos, botões, zíperes, etiquetas) antes da compostagem.
Biodegradável ou compostável?
Os termos são parecidos, mas não são a mesma coisa. Biodegradável é o material que os microrganismos conseguem decompor, sem prazo definido. Compostável é o material que se decompõe em condições de compostagem, dentro de um tempo razoável e sem deixar resíduos tóxicos. O tempo real para uma peça de algodão se decompor, por exemplo, depende de vários fatores como: umidade, temperatura, tamanho dos pedaços de tecido e de como ele foi tingido e tratado.
O destino da roupa começa no projeto
A escolha da fibra, da composição do tecido, do corante, dos aviamentos e da costura já define o que será possível fazer com a peça no fim da sua vida útil. Um tecido 100% de algodão orgânico, produzido em uma cadeia com restrição de químicos, nasce com mais chance de fechar o ciclo biológico do que uma peça misturada e cheia de acabamentos têxteis.
Ciclo técnico: quando a roupa continua em circulação
O ciclo técnico vale para materiais produzidos com fibras sintéticas que não voltam à natureza, como poliéster, nylon e têxteis com misturas de fibras, da mesma forma que o ciclo técnico também é indicado para as peças que ainda estão em bom estado e boas condições de uso. O objetivo é não perder o valor do material, considerando as seguintes estratégias:
1. Reuso: doação, troca, venda em brechós físicos e online.
2. Conserto e ajuste: costura e reforma para estender a vida útil.
3. Upcycling e remanufatura: transformar a peça em outra, como bolsas, patchwork ou panos.
4. Reciclagem têxtil: desfibrar o tecido para produzir novos fios, isolantes ou enchimentos.
O vilão das misturas
Tecidos com mais de um tipo de fibra, como algodão com poliéster ou com elastano, são difíceis de separar. Por isso eles atrapalham tanto a reciclagem quanto a compostagem, o que caracteriza um erro de projeto. Então antes de decidir o destino, leia a etiqueta de composição: ela indica em qual dos dois ciclos a peça se encaixa melhor.
Ciclo biológico X ciclo técnico
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Ciclo biológico |
Ciclo técnico |
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Materiais
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Fibras naturais: algodão (de preferência orgânico), linho, cânhamo, juta, sisal, seda, lã |
Poliéster, nylon, misturas de fibras e peças em bom estado |
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Objetivo |
Devolver nutrientes ao solo com segurança |
Manter o valor do material em circulação pelo maior tempo possível |
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Destinos |
Compostagem e biodegradação |
Reuso, conserto, upcycling, remanufatura e reciclagem |
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Condição |
100% fibra natural, sem aviamentos e com corantes de baixo impacto |
Peça limpa (para reuso) ou separada por composição (para reciclagem) |
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Exemplo |
Calcinha de algodão higienizada com sabão neutro, cortada em pequenos pedaços e direcionada para composteira |
Jaqueta de poliéster doada, consertada ou levada a um ponto de reciclagem têxtil |
O fim do ciclo
No Brasil, a logística reversa de resíduo pós-consumo ainda é uma iniciativa isolada instituída por projetos, marcas e varejistas, mas que a maioria dos consumidores ainda desconhece. Isso porque resíduos têxteis não constam na lista original da Lei 12.305/10 que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). No entanto, propostas como o PL 270/2022 buscam preencher essa lacuna ao estabelecer obrigações, campanhas educativas e incentivos tributários para a cadeia têxtil, incluindo fabricantes, comerciantes e consumidores, com intuito de compartilhar responsabilidades a respeito da disposição desses rejeitos. A determinação de regras de tratamento específicas para esse tipo de produto ainda é um desafio para alogística reversa, considerando a diversidade de materiais empregados e a complexidade que envolve a desmontagem para separação dos itens em produtos acabados.
Em razão disso, o fim do ciclo de uma roupa começa na sua criação. Escolher fibras naturais e certificadas, produzir com menos químicos e comprar peças pensadas para durar facilita a destinação correta lá na frente. Antes de descartar, pergunte: essa peça ainda pode viver, ser transformada ou voltar à terra?
